Garis e catadores: trabalhadores essenciais, mas

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Eles e elas estão pelas ruas, com ou sem uniformes, cuidando da limpeza das vias públicas, espaços públicos, coletando materiais para reciclar, recolhendo e separando aquilo que a sociedade descarta. Seja pela via formal de trabalho, cooperativados ou independentes, garis e catadores são trabalhadores essenciais para a manutenção da limpeza, seja nos centros urbanos ou nos bairros afastados. Na linha de frente, esses trabalhadores reclamam vacina para sua categoria, assim como um maior reconhecimento pelo seu trabalho. 

Esta é a segunda reportagem da série especial Trabalhadoras e Trabalhadores Invisíveis, realizada pelo Brasil de Fato RS neste que é o mês de luta da classe trabalhadora. Veja também:

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“O pessoal não é reconhecido como indivíduo, muitas vezes são subjugados. Pessoal acha que todo mundo que é gari é ex-presidiário, porque geralmente é o único lugar que dá oportunidade para esse povo. Então é bem delicada a questão, tem também a remuneração que deveria ser melhor”, destaca Renato Alves de Oliveira, que há dois anos trabalha como gari em uma cooperativa de Porto Alegre. 

Com uma remuneração em torno de R$1.100 por mês, ele conta que no setor onde trabalha atualmente é contrato fechado, e por isso mais tranquilo, diferente do tempo em que esteve nas praças públicas. Pontua que se estivesse nas praças e se o trabalho parasse por conta da pandemia, ele não receberia. Porém, sem salário fixo, recebe por dias trabalhados e tem como complemento de renda o auxílio emergencial. Boa parte do que recebe vai para os trabalhos de doações que ele faz juntamente com o quilombo africano onde vive, na Vila Cascata, em Porto Alegre. 

Nestes dois anos, Renato passou pela limpeza das vias e banheiro públicos. Já na pandemia, realizou a coordenação para que as pessoas usassem máscara e, atualmente, faz limpeza interna de órgão público. Neste período, conta que a parte desgastante é a não colaboração da sociedade. “Atualmente não estou no serviço de rua, mas ano passado o que via era a sujeira que as pessoas deixavam, como máscaras no chão, que não reciclam direito, não botam no saquinho, jogando lixo no chão, a coleta seletiva que nem todos fazem. Isso dificulta o trabalho do pessoal que está na rua”, pontua.  



Para Renato é preciso uma maior conscientização e apoio da população / Arquivo Pessoal

Com mais de três décadas dedicadas à limpeza das ruas, Virgínia Silva, 55 anos, tirou do trabalho de gari o sustento dos seus cinco filhos, entre eles a vereadora da Capital Bruna Rodrigues (PCdoB). Em dezembro de 1991, após passar no concurso, ela entrou para a equipe do Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU), que há 30 anos não tem concurso para reposição do quadro. Durante anos, Virgínia varreu vias públicas e atualmente trabalha com serviços gerais.

Virgínia fala com orgulho da profissão. “Quando eu iniciei no DMLU era a coisa mais linda, importante ser DMLU, ser uma gari, uma mulher que venceu através do seu serviço. Eu me lembro que a primeira vez que eu varri ganhei um lanche, um sorvete, no auge do verão. O senhor que me deu o lanche disse ‘que lindo a maneira que tu varre, tira todo toquinho de cigarro, dá gosto de olhar e ver o jeito que tu limpa a cidade’. Tudo que construí foi com meu serviço, de ter orgulho de ser uma gari”, salienta. 

Para ela, o gari é uma pessoa fundamental na cidade e deveria ser mais respeitado. “Não é porque o gari varre a rua que a gente não precisa conservar. O gari é uma classe que as pessoas pensam que não tem valor, mas temos muito valor. Imagina se não existisse um gari para coletar o lixo, para varrer as ruas, para deixar a cidade limpa, como seria hoje?”, indaga a profissional.

“Deveríamos estar tomando a vacina como prioridade”

“Nós que estamos na linha da frente, que trabalhamos nas ruas e em espaços públicos, com chuva, vento, temporal, deveríamos estar tomando a vacina como prioridade. As pessoas saem para rua para trabalhar. Essa doença não tem cor, idade, tu não vê, não enxerga ela”, afirma Virgínia. 

Já vacinada, conta que exerceu as atividades com medo e receio, ainda mais por ser do grupo de risco, com diabetes, pressão alta e colesterol alto. “Meu medo era de pegar e passar para meus colegas, meus entes queridos da minha família. Graças a deus não peguei, mas fico me cuidando o tempo todo, apavorada, porque perdi um irmão para essa doença. E muita gente querida, amigas que perderam entes das suas famílias, sua mãe, pai, filho. Essa vacina deveria ter vindo antes e deveria abranger todo mundo, sem distinção de idade. Parece que está devagar a coisa, tem que engrenar porque a gente já perdeu muita gente. Chegou a hora de dar a volta por cima”, enfatiza. 



Virgínia ao lado de sua filha, a vereadora de Porto Alegre Bruna Rodrigues / Arquivo Pessoal

Além de destacar a importância da vacinação, com a voz embargada, ela chama atenção para a dificuldade que muitas pessoas estão enfrentando com a questão da alimentação e a alta dos preços. “Me dói muito ver as pessoas pedindo, as crianças vendendo coisas nas sinaleiras, adultos passando necessidade. Isso me corta o coração porque eu vim de uma família muito pobre e sei o que é passar fome, não ter pão, alimentação. Em uma pandemia não era para subir a comida do jeito que está subindo. Daqui um tempo as pessoas não vão morrer da doença, mas vão morrer sim de fome”, lamenta.

Na sua avaliação, falta união para enfrentar o problema. “Nessa pandemia era para gente se unir, mas parece que uns puxam mais, quem tem mais quer cada vez mais e quem tem menos não tem nem o direito ao básico. Dá uma revolta, o povo parece estar adormecido, não vai às ruas para questionar e dizer basta. Queremos vacina já e alimentação para nosso povo”, frisa.  

Esquecidos pela gestão pública

Em uma pesquisa recente, Alex Cardoso, catador da Cooperativa de Catadores de Materiais Recicláveis da Cavalhada (ASCAT), estudante de Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e membro do Movimento Nacional dos Catadores, destaca que, apesar do aumento nas Unidades de Triagem (UTs) conveniadas ao DMLU, a geração de postos de trabalho caiu 34%, de 700 para 492 catadoras e catadores, de 2002 para 2021.

“Em relação à renda, a situação está mais complicada, já que em 2002 a renda era superior a dois salários mínimos mensais, caindo cerca de 200%, chegando a menos de um salário para 52,3% dos catadores e um salário para 36,8%, sendo que apenas 10,5% obtêm mais de um salário mínimo, problema acentuado, considerando a pandemia”, aponta. De acordo com o contrato das UTs com a prefeitura, não há previsão de pagamento de salários para os catadores, ficando a renda concentrada na quantidade e qualidade do que é vendido para a reciclagem.

“Ano passado nosso grupo sobreviveu com doações de cestas básicas. Com seus filhos em casa, sem escola, sem creche, as doações ajudaram e muito. Umas  pegaram auxilio emergencial, já uns não conseguiram porque não tinham documentos. Esse ano as mães que são cadastradas no Bolsa Família estão recebendo e algumas pegando o auxílio de RS 150. Hoje tiramos em média um salário mínimo”, expõe Marinês Santos, de 42 anos, uma das coordenadoras da UT Anitas, localizada na Rua Voluntários da Pátria.

A Associação Anitas foi fundada em 20 de maio de 2013 por um grupo de 20 mulheres que se organizaram para formar um coletivo de trabalho para a reciclagem de resíduos sólidos. Atualmente há 26 cooperados, sendo 15 mulheres e 11 homens. Conforme aponta Cardoso, no Brasil, cerca de 75% dos profissionais que trabalham na função são mulheres. 



Unidade de Triagem Anitas / Arquivo Pessoal

Marinês conta que para as pessoas dos galpões de reciclagem, nesses dois anos de pandemia a realidade não mudou muito, com exceção do medo que veio com o vírus. “Estamos trabalhando mais e com medo. Estamos nos cuidando e sempre pedindo para deus que cuide de nós, porque mesmo com proteção de máscara, luvas, álcool gel e higienização, mantemos contato direito nossa UT. Duas pessoas atestaram que estavam com covid e foram afastada para se tratar em casa.”

Ao falar sobre a questão da importância e visibilidade do trabalho, a coordenadora destaca que os catadores e catadoras prestam um trabalho essencial para o Estado, mas muitas vezes são esquecidos. “Seria bom que os catadores fossem reconhecidos como os médicos do meio ambiente. Não e só porque não somos diplomados que não merecemos ser reconhecidos. Quando veio a vacina, fomos esquecidos. E nos esquecem em vários outros recursos que o Estado ganha e que nunca chega para nossa categoria. Somos esquecidos dentro dos nossos galpões de reciclagem pela gestão pública”, salienta. 

Conforme aponta a coordenadora, a organização luta há oito anos com o apoio de alguns parceiros. “Hoje temos máquinas para prensar os materiais que são recicláveis, empilhadeiras, balanças, fora a parte estrutural que ganhamos de parceiros (logística reversa), ventiladores, elétrica, etc. A Associação trabalha com o lixo urbano de Porto Alegre na qual não se vê uma educação ambiental na população. Essa é a nossa luta, já que a política pública não faz uma educação ambiental”, conta.

Ressalta ainda que a Associação de mulheres quer realizar um projeto de educação ambiental com a população do bairro em que a UT está localizada. “Cada uma das mulheres carrega com ela uma batalha de lutas e por isso somos tão guerreiras como Anitas Garibaldi”, finaliza. 

Além da questão da remuneração, outro problema enfrentado pelos catadores e catadoras da capital gaúcha, de acordo com a reportagem da equipe do Matinal, são as multas aplicadas pela prefeitura de Porto Alegre. Segundo expõe a matéria, desde que Sebastião Melo (MDB) chegou à prefeitura, a média mensal de multas aplicadas por mês contra os catadores autônomos sextuplicou. “Foram 57 de janeiro a abril, uma média de 14 multas por mês. Ao longo de todo o ano passado, foram 28 autuações — menos de 3 por mês”, destaca. 


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Fonte: BdF Rio Grande do Sul

Edição: Marcelo Ferreira



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